30.12.14

Remember Me - Capítulo 16 MARATONA 2/4

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O dia amanheceu frio e cinzento. O vento da noite movimentara a neve, cobrindo a maior parte das pegadas. Contudo, Joseph não precisava vê-las para saber que o perigo continuava ameaçando Demetria.
A cada dia que passava, percebia que o medo dela crescia.
Demi estava acordada mas, por sugestão de sua mãe, comia algumas bolachas de água e sal antes de levantar. Ele podia ouvir os leves estalidos das pequenas mordidas. Escondendo a ansiedade, forçou um sorriso ao voltar do banheiro.
— Tenho a impressão de que existe um camundongo na minha casa.
— E me sinto, mesmo, como um camundongo — disse Demi, procurando segurar as migalhas. — A cama vai ficar cheia de bolacha!
— Há coisas piores — brincou Joseph.
Ela fechou os olhos, lembrando-se da terrível náusea que sofrera na manhã anterior.
Joseph riu.
— Está pronta para tomar um chá?
Depois de pensar por alguns momentos e ter certeza que o estômago não a ameaçava, ela fez que sim.
— Ótimo! Então, vou lhe trazer uma xícara.
Demi começou a levantar-se, porém o marido a impediu.
— Não force a mão, querida. Fique aí quietinha. Deixe-me cuidar de você, para variar.
Ela deixou-se cair de novo sobre o travesseiro, com ar frustrado.
— Espero que esta manhã o enjôo não venha ou que, pelo menos, não dure tanto.
— Vamos marcar uma consulta. Talvez o médico receite algo que ajude. Agora, espere que volto já.
Assim que o marido saiu ela fechou os olhos, dizendo a si mesma que estava imaginando a tristeza no rosto dele. Joseph dissera que a amava, jurara que ia amar o bebe, não importava o que acontecesse. Tinha que acreditar que isso era verdade ou ficaria louca. Com um profundo suspiro, virou de lado e abraçou o travesseiro.
O bater da louça e panelas consistia num som reconfortante e ela caiu numa espécie de sonolência. Aquele barulho era um sinal de segurança, era a certeza de que não estava sozinha.
Um instante depois o telefone começou a tocar. Rolou o corpo para atender, mas a campainha parou antes que erguesse o receptador. Alguns minutos depois, Joseph entrou no quarto com o telefone sem fio na mão.
— Demi, atenda aí. É Addie Bell, da Kitteridge House, e quer falar com você.
Foi impossível não ficar aflita e, relutante, ela pegou o telefone da mesinha de cabeceira.
— Addie?
— Demetria! Em primeiro lugar, meus parabéns!
Demi olhou para Joseph, que sorria com ar culpado. Talvez estivesse se angustiando à toa, pensou. Se ele estava contando para todo mundo que ia ter um filho, tudo devia estar bem.
— Pois é, fomos apanhados de surpresa — disse ao telefone.
— Imagino! — riu Addie. — Agora, vamos ao motivo do meu telefonema. Não consegui muita coisa, mas estive tentando lembrar-me de tudo que podia sobre aquele rapaz, Pharaoh Carn, e ontem à noite, quando assistia a um filme na televisão, alguma coisa veio-me à lembrança.
— O quê? — quis saber Demi.
— Pharaoh tem uma tatuagem. Na verdade, ele saiu e voltou um dia muito tarde na noite em que a fez. Devia ter uns quinze anos, acho, no máximo dezesseis. Eu fiquei furiosa, tanto por ele ter saído sem ordem e demorado, quanto pelo mau exemplo que a tatuagem ia dar aos outros meninos.
Instintivamente, Demetria passou a mão na tatuagem que tinha no pescoço. Olhava para Joseph e ele assentiu, encorajando-a.
— Era uma espécie de sinal egípcio — prosseguiu Addie. — Parecido com uma cruz, mas não era uma cruz… Tinha uma forma arredondada, diferente, no topo. E era colorida… amarela, eu acho. — Fez uma pausa. — Sei que não é muito, porém como sei que você está ansiosa, achei que não devia deixar de contar qualquer coisa que me lembrasse.
O coração de Demi batia disparado quando ela se levantou e ficou parada junto à cama.
— Oh, Addie, não imagina o quanto isso significa para nós! Olhe, destesto ter que desligar, mas precisamos contar esse fato aos policiais encarregados do caso. Importa-se de darmos seu telefone de novo para eles, caso queiram confirmar o que vamos dizer?
— Claro que não. Estou contente em poder ajudar de algum modo.
— Está bem… e muito obrigado por ter telefonado.
— Ligue-me de vez em quando — pediu Addie. — Estarei esperando para saber se é menino ou menina.
— Eu lhe contarei assim que souber — prometeu Demi.
Desligou e, quando voltou-se para o marido, seus olhos refletiam ansiedade.
— Joseph, era isso que o investigador Dawson queria dizer, não? A prova da existência da tatuagem em Pharaoh pode ser a evidência física a que ele se referiu?
— Não sei, querida, mas vamos ficar sabendo logo. Como você se sente?
Ela olhou para si mesma e, em seguida, para as migalhas de bolacha que haviam caído no chão.
— Como alguém que comeu bolacha na cama.
Joseph riu.
— O chá está pronto. Se me der um ou dois minutos vou trazê-lo.
— Vou tomá-lo na cozinha, já chega as bolachas que comi aqui, fazendo essa sujeira toda.
— Tem certeza? — preocupou-se ele.
Fra fez um gesto de impaciência.
— Vou me vestir e você vai telefonar. Quero que Dawson seja informado o mais depressa possível sobre a tatuagem.

Avery Dawson abria caminho no trafego intenso do centro da cidade e seu parceiro tentava terminar de comer um sanduíche.
— Droga, Dawson, vá mais devagar! — resmungou Ramsey.
Tinha um sanduíche em uma das mãos e um copo de café na outra e seu parceiro observou o sanduíche com ar pensativo.
— Eu acho que você devia ter deixado para comer um lanche depois — comentou. — Sabe que tem estômago fraco e o capitão informou que a vítima teve a garganta cortada.
Com um sacudir de ombros, Ramsey comeu o último bocado.
— Já vi coisas piores.
— Depois não diga que não o avisei.
— Considero-me avisado.
E Ramsey terminou de tomar o café.
Alguns minutos mais tarde, o carro dos investigadores parava junto a estação rodoviária. O vento gelado passou através de seus sobretudos quando saíram do carro. Entraram e logo tiveram o caminho fechado por uma multidão de curiosos amontoados.
— Polícia, dá licença… — disse Ramsey.
A multidão deu-lhes passagem.
Pouco depois chegavam ao sanitário masculino da rodoviária.
— Quem encontrou o corpo? — perguntou Dawson ao policial fardado que foi ao encontro deles.
O patrulheiro apontou para dois adolescentes que estavam sentados num banco junto à porta do sanitário. A rebeldia que lhes dera coragem para pintar os cabelos de púrpura e usar aros de prata nas narinas havia desaparecido. Seus rostos estavam pálidos e os olhos vagos indicavam choque.
Dawson soltou a respiração devagar. Que droga de coisa para duas crianças encontrarem! Aproximou-se.
— Sou o investigador Dawson. Este é o meu parceiro, investigador Ramsey. Precisamos fazer-lhes algumas perguntas.
Os jovens assentiram ao mesmo tempo.
— Vocês foram os primeiros a ver a vítima?
Assentiram de novo.
— Quero dizer, viram alguém perto da vítima?
— Não, senhor — respondeu um deles. — Quando chegamos o banheiro estava vazio… — a voz do rapazinho falhou — a não ser pelo morto.
— Vocês tocaram em alguma coisa? — inquiriu Dawson.
— Não, não tocamos em nada, podemos jurar. Saímos correndo e pedimos a um homem para chamar a polícia.
Dawson pensou por instantes. Não havia motivo para continuar a inquirição. Além do fato de aqueles jovens estarem no lugar errado no momento errado, nada indicava que pudessem ajudar de algum modo.
— Rmasey, tome nota do nome e endereço dos dois e vá encontrar-me lá dentro em seguida.
O policial anuiu e fez o que o parceiro mandara.
Fred True, o médico legista, estava acabando o exame superficial quando ele entrou. Ao olhar o cadáver, Dawson esqueceu todas as perguntas que planejara fazer.
— Essa não! — resmungou.
True ergueu os olhos.
— Amigo seu?
— Acabamos de expedir um mandado de detenção para ele.
— Alguém chegou primeiro…
O médico tirou as luvas e jogou-as num saco plástico.
— Há quanto tempo aconteceu? — perguntou o policial.
— Há menos de uma hora, parece. — True voltou-se para o seu assistente. — Terminei. Coloque-o no saco e registre-o. Dawson vai facilitar nosso trabalho, pois o conhece.
Depois de olhar para o morto mais uma vez, Dawson falou.
— Law. O nome dele é Simon Law.
Ramsey chegou a tempo de ouvir o parceiro.
— Está brincando! — surpreendeu-se olhando o corpo no chão.
— Não — respondeu Dawson, voltando-se — É o nosso inquilino desaparecido… Parece que a intenção dele de fazer amigos fracassou. — Bateu no ombro de Ramsey. — Vamos. Estou curioso para ver a ficha dele.

Pouco tempo depois, chegavam à delegacia e Dawson começou imediatamente, mesmo em pé, a passar os olhos pelos papéis que havia sobre a sua mesa.
— Alguma coisa interessante na ficha dele? — perguntou Rmsey, indo para o seu lugar.
— Não, nada… — Dawson continuou lendo. — Ei, espere! Aqui está!
Tirou o capote apressadamente, jogou-o numa cadeira e sentou-se, falando sem olhar para Ramsey, que se aproximava.
— Você vai pegar café? Traga um para mim — pediu, entregando sua caneca,
— Pelo jeito — ironizou Ramsey — você está a fim de viver só de café hoje também!
Seu parceiro nem se deu ao trabalho de erguer a cabeça.
— Cale a boca e faça o que eu mandei — resmungou.
Ramsey distanciou-se, rindo, e já voltava com o café quando ouviu Dawson praguejar.
— O que foi?
Indicando um dos documentos da pasta, Dawson respondeu:
— A última detenção de Law foi por tráfico de drogas em Los Angeles.
— Não diga! — Ramsey pôs a caneca do parceiro na mesa. — Quantos anos ele pegou de cadeia?
— Nenhum.
— Como assim? Por quê?
Dawson parecia irritado.
— Porque Frederick Mancuso era o advogado dele.
— Ainda não entendi.
— Mancuso é advogado do cartel. Advogado de Alejandro, para ser mais exato. Pharaoh Carn trabalha para Alejandro, Simon Law alugou temporariamente um apartamento em frente à residência dos Jonas, Demetria jura que Pharaoh é o homem que a seqüestrou e…
— Está bem, está bem! Já entendi. O que vamos fazer com essa informação?
Antes que Dawson pudesse responder, seu telefone tocou. Ele atendeu com ar ausente, a cabeça ainda no que acabara de ler.
— Aqui é Dawson.
— Sou eu, Joseph. Tenho uma novidade para você.
Soltando o documento em cima da mesa, Dawson escreveu o nome de Joseph num papel e mostrou a Ramsey, que assentiu e pegou a pasta com a ficha de Simon Law.
— O que houve? — indagou o investigador.
— Acabamos de receber um telefonema de Addie Bell. Lembra-se dela? A administradora do orfanato onde Demi cresceu.
— Ah, sim. Uma mulher simpática — comentou o policial — e pareceu-me preocupada com o que aconteceu à sua esposa.
— Ela telefonou para dar uma informação que Demi e eu achamos importante.
O investigador inclinou-se para a frente; percebia pelo tom de voz que Joseph Jonas estava nervoso.
— Estou ouvindo — disse.
— Addie Bell contou-nos que uma das vezes que Pharaoh Carn se meteu em encrenca no orfanato foi quando saiu sem ordem e voltou de madrugada, com uma tatuagem,
Antes que Joseph terminasse, o policial sou be o que ele ia dizer.
— Suponho que ela se lembre de como era essa tatuagem — observou.
— Lembra-se, sim. Addie disse que parece uma cruz, a não ser pela curvatura em cima, e que era colorida. Amarela, ela acha.
Avery Dawson começou a sorrir.
— Igual à que apareceu no pescoço da sua esposa.
— Agora você tem indicio suficiente para ir atrás de Carn?
O sorriso do investigador ampliou-se.
— Tenho, sim. E se essa tatuagem ainda existe no corpo de Pharaoh Carn, a vaidade será a desgraça dele.
— Graças à Deus! — descontraiu-se Joseph. — Agora talvez possamos colocar tudo isso para trás em nossa vida.
O sorriso do policial apagou-se.
— Não tenha tanta certeza. Primeiro temos que encontrá-lo. Pharaoh Carn tem recursos muito além do que o senhor possa imaginar, tem o apoio dos maiorais do crime e e…
— Não me importa o que ele tem — interrompeu Joseph — desde que não tenha minha mulher.

Foram necessários dois dias para que as engrenagens da justiça começassem a se movimentar, mas quando o fizeram passaram a funcionar depressa.
Duke Needham entrou no escritório de Pharaoh quase correndo.
— Chefe, recebi o telefonema de um conhecido de Los Angeles. Ele disse que o Departamento de Polícia de lá tem um mandado de prisão para você e os pliciais estão virando a cidade de cabeça para baixo à sua procura.
Pharaoh deixou cair na mesa a caneta com a qual escrevia e ergueu-se abruptamente. Demetria! Esperara demais.
— Maldição!
— O que quer que eu faça?
Sem responder, Pharaoh caminhou até a janela que dava para a frente da propriedade e ficou olhando para fora. O dia estava claro, porém frio. No vale lá embaixo podia ver a fila de tráfego pela avenida e os anúncios luminosos dos cassinos, eternamente acesos. Tudo parecia normal, no entanto era o primeiro a reconhecer que as aparências podiam enganar. Enfiou a mão no bolso, procurando pela pata de coelho, e seu cérebro disparou a funcionar.
— Mande uma das criadas fazer minha mala. Não mais do que duas mudas de roupas apropriadas para os trópicos. Posso comprar roupas no lugar para onde iremos.
— E para onde iremos? — perguntou Duke.
Os músculos junto às temporas de Pharaoh começaram a latejar.
— Há meses Alejandro vem querendo me convencer a ir para a América do Sul. Acabo de decidir a aceitar a proposta dele.
— Sim, senhor. Vou mandar que aprontem o helicóptero imediatamente.
— Diga ao piloto que faremos uma parada em Denver.
A garganta do assecla apertou-se. A obsessão do chefe por aquela mulher ainda seria a ruína deles.
— Considerando o que acabamos de saber, acha isso seguro, senhor?
Prmeiro Pharaoh imobilizou-se, depois sua voz soou perigosamente baixa.
— Não questione minhas decisões. Não questione minha autoridade. Desapareça da minha frente e faça o que eu mandei.
Assim que Needham saiu, Pharaoh pegou o telefone. Aquela decisão abriria a porta de uma nova vida para ele, porém havia outra porta que deveria ser fechada, antes disso. A porta para o passado de Demetria. Digitou o numero e sentopu-se no canto da escrivaninha, esperando que atendessem. Momentos depois a voz de barítono de Pepe Alejandro vibrou em seu ouvido. Ele respirou intensamente e pensou em qual seria a melhor aproximação.
— Patrón! Aqui é Pharaoh.
— Pharaoh, meu amigo, estava esperando seu telefonema. Você está numa encrenca seria, eu acho.
Pharaoh estremeceu e o tom de voz de Alejandro deixou-o nervoso.
— Não, Pepe. Tenho a situação sob controle.
— O que pretende fazer a respeito? — indagou Alejandro.
— Estou fazendo planos de acordo com os fatos. Resolvi aceitar sua proposta para agir na Colômbia. Mas, antes, tenho um favor a pedir.
— Estou ouvindo.
— Há algo que quero levar comigo. Eu quero…
— Sei o que você quer. — interrompeu Alejandro. — É aquela mulher de novo. É por causa dela que você está nessa encrenca. Preciso avisá-lo, Pharaoh, de que não gosto de meus homens misturem vida pessoal com negócios. Ouça o que eu digo! Você vai embora para Nevada hoje e de lá irá direto para a fronteira. Miguel estará a sua espera em Tijuana, com um avião. Dali, vocês irão para a América do Sul. E não quero que entre em contato comigo enquanto ainda estiver ai em sua casa.
— Mas, Pepe, você não entende! Essa mulher é minha sorte. Sem ela, eu…
O tom de barítono de Pepe Alejandro tornou-se mais profundo, numa clara advertência.
— Não, Pharaoh. É você que precisa entender. Essas são as minhas ordens. — Houve um instante de silencio, então Alejandro acrescentou: — Você entendeu?
Pharaoh ficou tenso. Sabia muito bem quais eram as conseqüências de desobedecer as ordens de Alejandro e deu uma resposta vaga.
— Quando eu chegar em Tijuana entrarei em contato com Miguel.
— Era isso que eu queria ouvir!
Pepe Alejandro bateu o telefone, dando a Pharaoh a certeza de que seu chefe estava muito zangado.
Sentiu-se vagamente mal quando pensou no que ia fazer, porém não sairia do país sem levar Demetria. Quando a tivesse de novo, encontraria uma maneira de mudar-lhe o modo de pensar. Não aceitava ser odiado por ela, como a ouvira afirmar durante os dois anos em que a mantivera presa.
Quando Demetria era pequena, ele havia sido seu melhor amigo e a família que ela não tinha. Tudo que precisava fazer era não deixar o marido dela para trás, e aquilo não aconteceria de novo.
Ignorou os avisos de sua consciência enquanto ia para o quarto ver como ia o preparo da sua bagagem. Alejandro não ia gostar do que estava por fazer, mas se o expulsasse do grupo não se importaria. Pharaoh garantia a si mesmo que Demetria não estava esperando que ele voltasse. Não com um mandado de prisão ameaçando-o. A surpresa era seu maior trunfo.

A sopa fervia numa panela sobre o fogão. O cheiro gostoso do pão de milho caseiro espalhava-se pela casa. Demi atravessou a cozinha, indo para a lavanderia com as roupas para lavar. Ao passar pela janela olhou para fora. Joseph ainda estava removendo a neve do caminho no quintal, que ia para o
ponto lateral da casa onde o lixo era recolhido. Seu CD preferido tocava e ela cantarolava junto com ele, sua voz elevando-se de vez em quando ao cantar um verso mais conhecido das músicas. Quando estava colocando sabão em pó na máquina o telefone tocou. Abaixou a tampa, ajustou o controle e apertou-o, registrando distraidamente que a ága começava a entrar. Foi atender.
— Alô?
Silêncio.
— Alô! Alô!
Alguém do outro lado da linha desligou.
Ela também desligou e sacudiu os ombros. Tinha gente que precisava aprender boas maneiras ao telefone. O mínimo que se devia dizer era ¨desculpe¨quando se discava um numero errado.
Foi até o fogão, deu uma mexida na sopa, para ter certeza de que não estava pegando no fundo da panela, depois verificou o pão de milho. Mais alguns minutos no forno e estaria pronto.
Olhou de novo pela janela. Joseph não estava mais à vista. Não se abalou. Provavelmente limpava agora o caminho da frente. Em parte por curiosidade, em parte por impulso de saber onde ele estava, foi para a sala e olhou pela janela. Lá estava o marido num canto da casa, retirando pingentes de neve do telhado. Ela sorriu e ia acenar para ele quando a luz piscou e apagou-se.
Demetria esperou um momento, esperando que a força voltasse logo, mas quando ouviu a máquina de lavar roupa parar, emitiu uma exclamação de desânimo. Poderia terminar de fazer a comida sem problema. O fogão era a gás. Mas as roupas ficariam impregnadas de sabão em pó. Decidiu voltar à cozinha, para olhar no quadro de luz, justamente quando um carro cinzento virou a esquina e começou a descer a rua. Não viu, também, que ele diminuía de velocidade e que, por fim, parou.

Tirar neve dos caminhos não era o trabalho preferido de Joseph, mas como havia nascido em Denver era uma coisa que fizera quase que durante toda a sua vida. Quando terminara o caminho dos fundos e fora para a frente da casa, estava suando sob o agasalho. Cada vez que exalava o ar, o calor de sua respiração criava uma pequena nuvem de condensação junto de seus lábios.
A calçada diante da casa estava coberta de neve e parecia muito mais longa do que seus quinze metros de uma ponta do seu terreno à entrada para a garagem. Cutucou com a pá uns pingentes de gelo que desciam do telhado e olhou-os cair macia e silenciosamente na neve.
Deu um passo para a direita e cutucou outra série de pingentes. Eles fizeram um suave ruído de cristal que se quebra, pareceram imobilizar-se
por alguns momentos no ar, depois caíram enterrando-se na neve, como os outros.
Joseph não parava de pensar que no próximo ano teriam uma criança em casa, e seu coração se aquecia diante dessa perspectiva.
Meu Deus, um filho! , pensou emocionado. Vai ser menino ou menina? E isso importa? De jeito nenhum. Menos ainda quando o nome do pai é a maior incógnita.
Afastou esse pensamento. Fora sincero para Demi quando lhe dissera que não se importava. Passara dois anos rezando para um milagre acontecer. E ele acontecera, trazendo-a de volta. Mesmo que ela já tivesse trazido o bebê consigo, ou o tivesse concebido depois da volta, não iria alterar o fato de que Demetria estava de novo na sua vida. Um filho que viesse dela só poderia ser puro, não importava em que circunstância se houvesse dado a concepção.
A atenção aos pingentes de gelo passou para o reflexo de si mesmo na janela à sua frente. De repente ele se tornou consciente de algo mais, do reflexo do sol no pára-brisa de um carro percorrendo a entrada da garagem.
Voltou-se quando dois homens saiam. Um era alto, com ombros largos, e os cabelos compridos, presos num rabo-de-cavalo, desaparecendo atrás das costas. Jamais o vira, porém o outro pareceu-lhe familiar. Joseph Demiziu a testa. Onde ele vira…
Oh, meu Deus!
Gemeu, como se houvesse sido atingido por um soco, e correu para casa, gritando por Demetria. O tiro foi pouco mais do que um ¨pop¨, mas atingiu-o nas costas, junto ao ombro, e o impacto derrubou-o no chão. Ele mergulhou na neve macia e quase desapareceu, como os pingentes de gelo que derrubara.
Duke paraou junto ao corpo caído.
— Quer que eu…
— Deixe-o — interrompeu Pharaoh, andando para a porta pelo caminho que ainda não fora limpo. — Não vamos ficar muito aqui tempo bastante para que ele nos incomode.
O capanga olhou nervosamente por cima do ombro. A vizinhança parecia deserta, como estivera antes do tiro, mas num lugar como aquele nunca se sabia se se estava sendo observado. Continuava amaldiçoando Pharaoh por insistir em atuar à luz do dia, porém tudo que fez foi erguer a gola para proteger as orelhas e também dirigiu-se para a porta. Ia bater quando Pharaoh segurou-lhe a mão.
— Não Duke.
— Mas, chefe, eles tem um sistema de segurança!
Needham apontou para uma caixa colocada acima de uma das janelas.
— Ele não deve estar ligado e a porta não deve estar trancada… Não com o ¨garotão¨ aqui fora, limpando a neve.
Duke relanceou os olhos pelo homem que Pharaoh acabara de baleare segurou a maçaneta. Como o chefe dissera, a porta abriu-se.
O odor do pão assando foi o que eles sentiram primeiro. Pharaoh respirou fundo e seu coração passou a bater mais forte, antecipando o momento em que estaria junto com ela de novo. E desta vez seria para sempre.
— Trouxe a droga? — perguntou.
Seu capanga enfiou a mão no bolso e tirou uma seringa cheia de liquido.
— Sim, senhor.
— Então, vamos logo com isso — murmurou Pharaoh. — Tenho um encontro em Tijuana e não gosto de deixar ninguém esperando.

Demetria se achava no meio da cozinha quando ouviu Joseph gritar seu nome. Parou, voltou-se e nesse momento algo adejou em sua mente como um fantasma de passagem. Enquanto permanecia parada, a lembrança veio.
Estava naquele mesmo lugar quando ouvira o ruído da porta da frente se abrindo, depois os passos no hall e pensara que fosse Joseph.
Mas não era.
Seu coração começou a bater como um tambor e suas mãos ficaram suadas.
— Joseph?
Ninguém respondeu.
— Joseph?
O silêncio era mortal.
O pânico chegou em ondas violentas e era tudo que ela precisava para se mexer. Sem se dar tempo para pensar, terminou de atravessar a cozinha, correu pelo hall e entrou no quarto.
Segundos depois abriu a gaveta onde guardava camisolas e pegou o revólver. Um rápido olhar demonstrou-lhe que estava carregado. Foi até a janela. A parte da frente do carro cinzento estava apenas visível. De súbito uma mancha colorida na neve atraiu seu olhar. Prestou atenção, tentando enxergar melhor através do vidro meio embaçado. Um débil gemido escapou-lhe dos lábios quando viu que olhava para o abrigo de Joseph, e para o braço de Joseph, na neve.
Contendo os soluços, correu para o telefone. Com dedos trêmulos, digitou 911. Quando atenderam ouviu a porta da frente abrir-se.
— Socorro… Preciso de socorro — murmurou. — Diga ao investigador Dawson que é Demetria Jonas. Diga-lhe que eles voltaram.
— Senhora… senhora! Qual é sua emergência?
Demi abafou outro gemido.
— Acho que atiraram no meu marido e estão entrando na minha casa. Tenho que ir, eles vão me encontrar…
Ia desligar, mas a voz do outro lado chamou:
— Senhora, não desligue. Vamos mandar socorro.
— Você não entende… — sussurou Demi. — Não posso deixar que me peguem de novo. Procure o investigador Avery Dawson, ele vai entender.
Desligou o telefone e deslizou até a porta. Parou de respirar quando ouviu os passos deles dentro da casa. De repente, as luzes começaram a piscar e a força voltou. O repentino jorrar da água na maquina de lavar roupa soou pesadamente no silêncio que reinava. Ouviu um objeto qualquer cair no chão, quebrando-se, em seguida uma voz abafada de homem praguejar.
Depois de um rápido olhar, saiu para o hall. A última coisa que queria era ficar presa dentro de casa com os intrusos.

Segurando o revólver com ambas as mãos, começou a andar.

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EITA, QUE É AGR Q O BICHO PEGA! Espero que estejam gostando... Ate daqui a pouco, bbês ♥ Bjs, amo vcs <3

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